Neste artigo
A proposta quase sempre chega do mesmo jeito: “a vaga é PJ, mas paga mais”. E o número realmente é maior que o salário que você ganharia com carteira assinada. O problema é que comparar o faturamento PJ com o salário CLT é comparar duas coisas que não são a mesma — e a diferença não está só no imposto.
Por que a comparação óbvia engana
O contracheque não é tudo o que um CLT recebe. Ao longo de um ano, ele leva também o 13º salário, as férias com o terço constitucional e os 8% de FGTS depositados todo mês.
Somando isso, um salário de R$ 5.000 vira um pacote anual bem maior:
| O que entra no ano | Valor |
|---|---|
| Líquido do mês × 12 | R$ 53.982 |
| 13º líquido | R$ 4.498 |
| Férias + 1/3 líquidas | R$ 5.522 |
| FGTS depositado no ano | R$ 4.800 |
| Total no ano | R$ 68.803 |
Dividido por doze, isso dá R$ 5.734 por mês — e é esse o número que deve ser comparado com o PJ, não os R$ 4.498 que caem na conta todo mês.
O PJ não tem nada disso automaticamente. Se quiser 13º, férias e um fundo equivalente ao FGTS, precisa separar esse dinheiro sozinho, todo mês.
Quanto é preciso faturar para empatar
Do outro lado, o faturamento sofre descontos que o salário não tem. No Simples Nacional, com pró-labore de R$ 2.240 (calibrado para passar no Fator R) e contador de R$ 300 por mês, o ponto de equilíbrio com aquele CLT de R$ 5.000 fica em cerca de R$ 6.681 de faturamento mensal.
São aproximadamente 34% acima do salário. Abaixo disso, a proposta PJ paga menos do que parece, mesmo trazendo um número maior na frente.
Esse percentual não é fixo. Ele muda com o pró-labore escolhido, com o regime tributário, com o custo do contador e com o seu número de dependentes. Por isso a conta precisa ser refeita caso a caso — é o que a calculadora de CLT ou PJ faz.
O Fator R: onde mora a maior alavanca
Se você vai abrir empresa de serviço, esta é a regra que mais mexe no seu bolso.
O Fator R compara a folha de pagamento dos últimos doze meses — o pró-labore entra nela — com o faturamento do mesmo período. Se o resultado for 28% ou mais, a empresa é tributada pelo Anexo III do Simples, cuja primeira faixa é de 6%. Se ficar abaixo, cai no Anexo V, que começa em 15,5%.
Mesmo faturamento, mesma atividade, alíquota inicial mais que o dobro. Por isso muita empresa de serviço calibra o pró-labore para fechar exatamente os 28%: aumentar a própria retirada pode reduzir o imposto total. Há um efeito colateral bom, aliás — pró-labore maior significa contribuição maior ao INSS e, portanto, melhor histórico previdenciário.
Vale um esclarecimento que confunde quase todo mundo: a alíquota que você paga não é a da tabela. O DAS usa a alíquota efetiva, calculada como (receita dos 12 meses × alíquota nominal − parcela a deduzir) ÷ receita dos 12 meses. Ela é sempre menor que a nominal a partir da segunda faixa. A calculadora PJ mostra as duas lado a lado.
O que não cabe em planilha nenhuma
Até aqui tudo tem número. A parte difícil da decisão não tem.
Como PJ, você perde o seguro-desemprego, o aviso prévio, a multa de 40% do FGTS numa demissão sem justa causa, a estabilidade em situações protegidas por lei e as licenças remuneradas. O contrato pode ser encerrado com muito menos formalidade do que um vínculo celetista.
A aposentadoria também muda de lugar. O CLT contribui sobre o salário; o PJ contribui sobre o pró-labore, não sobre o faturamento. Quem retira um pró-labore mínimo para pagar menos INSS está, na prática, reduzindo o próprio benefício futuro.
E há a instabilidade de renda. Faturamento de PJ oscila, cliente atrasa e mês ruim existe. Por isso a recomendação usual de reserva de emergência sobe de seis para cerca de doze meses de custo de vida para quem trabalha por conta — veja quanto isso significa no seu caso na calculadora de reserva de emergência.
Do outro lado da balança ficam vantagens reais: autonomia, possibilidade de atender mais de um cliente, dedução de despesas da atividade e, na maioria dos casos, carga tributária menor.
Quando a relação PJ vira problema jurídico
Existe um limite que vale conhecer. Quando a relação tem subordinação, horário fixo, exclusividade e pessoalidade, os elementos que a CLT usa para caracterizar vínculo de emprego continuam presentes — mesmo que o contrato assinado seja de prestação de serviço entre empresas.
Essa situação é conhecida como pejotização e pode ser questionada na Justiça do Trabalho. Não existe resposta automática: cada caso depende de como a relação funciona no dia a dia, e a análise é jurídica, não contábil. Se a sua proposta PJ é para continuar fazendo exatamente o mesmo trabalho, no mesmo horário, para o mesmo e único chefe, vale conversar com um advogado trabalhista antes de assinar.
Faça a sua conta antes de responder
Este texto usa um cenário para poder mostrar números. O seu é outro.
A calculadora de CLT ou PJ abre os dois lados linha a linha e devolve o faturamento de equilíbrio — o número que serve para negociar. A calculadora PJ mostra quanto sobra do faturamento em cada regime, com todos os tributos separados.
As duas são educativas e não substituem um contador olhando o seu caso: a escolha de regime tributário tem prazos e regras de enquadramento que uma simulação não reproduz.
Faça a conta
Ferramentas deste tema
Dúvidas comuns
Perguntas frequentes
Quanto preciso faturar como PJ para ganhar o mesmo que na CLT?
Bem mais que o salário. Um CLT de R$ 5.000 equivale a cerca de R$ 5.734 por mês somando 13º, férias com um terço e FGTS ao líquido. Para igualar isso como PJ no Simples Nacional, com pró-labore que passa no Fator R e contador de R$ 300, o faturamento precisa ficar em torno de R$ 6.681 — aproximadamente 34% acima. A regra de bolso de somar 30% costuma ficar no limite.
O que o PJ perde em relação ao CLT?
13º salário, férias com um terço, FGTS e a multa de 40% na demissão sem justa causa, seguro-desemprego, aviso prévio, estabilidade e licenças remuneradas. A aposentadoria também muda: o PJ contribui para o INSS sobre o pró-labore, não sobre o faturamento — se o pró-labore é baixo, o benefício futuro é baixo.
O que é o Fator R e por que ele muda tanto o imposto?
É a razão entre a folha de pagamento dos últimos 12 meses, incluindo o pró-labore, e o faturamento do mesmo período. Se der 28% ou mais, o serviço é tributado pelo Anexo III do Simples, que começa em 6%. Abaixo disso, cai no Anexo V, que começa em 15,5%. É a diferença entre 6% e 15,5% sobre o mesmo faturamento.
Ser PJ para a empresa que me demitiu é legal?
Depende de como a relação funciona na prática. Se houver subordinação, horário fixo, exclusividade e pessoalidade, os elementos do vínculo de emprego continuam presentes mesmo com contrato de PJ — situação chamada de pejotização, que pode ser questionada na Justiça do Trabalho. A forma do contrato não decide sozinha; o dia a dia da relação também pesa.
A distribuição de lucros do PJ paga imposto?
Só acima de R$ 50 mil por mês. A Lei 15.270/2025 passou a cobrar 10% de imposto na fonte quando uma mesma empresa distribui mais de R$ 50 mil em um mês para a mesma pessoa física, e nesse caso a alíquota incide sobre o total distribuído, não apenas sobre o excedente. Abaixo desse valor, a distribuição segue isenta.